Medir o aterramento não é um único procedimento. Existem métodos diferentes para responder a perguntas diferentes: uma coisa é levantar a resistividade do solo para dimensionar um projeto, outra é verificar se um aterramento já instalado continua dentro do valor projetado. Confundir os dois é o erro mais comum em laudos e vistorias.
Este artigo explica os principais métodos de medição, os instrumentos usados e quando cada um se aplica, com foco no que a NBR 5419:2026 e a NBR 5410 esperam de uma medição bem feita.
A distinção que muda tudo: resistividade do solo x resistência do aterramento
Antes de falar de métodos, é preciso separar duas grandezas que costumam ser tratadas como a mesma coisa:
- Resistividade do solo (ρ, em ohm·metro): uma propriedade do terreno, medida na fase de projeto. Ela define como dimensionar a malha ou as hastes.
- Resistência de aterramento (R, em ohm): a medida do sistema já instalado, feita na fase de verificação. Ela diz se o aterramento real está dentro do valor projetado.
Cada uma tem o seu método. Usar o método errado gera um número que não responde à pergunta certa.
Método da queda de potencial (62%): verificar a resistência do aterramento instalado
O método mais usado para medir a resistência de aterramento de um eletrodo ou malha já instalado é o da queda de potencial, também chamado de método dos 62%. Ele usa três pontos: o eletrodo sob teste, uma haste de corrente e uma haste de potencial.
O procedimento é simples na ideia: injeta-se uma corrente entre o eletrodo e a haste de corrente, e mede-se a tensão na haste de potencial. Movendo a haste de potencial ao longo da linha entre o eletrodo e a haste de corrente, o valor de resistência forma uma curva. O ponto em que essa curva fica estável, em torno de 62% da distância total, é o valor de resistência do aterramento.
Esse é o método especificado pela ABNT NBR 15749 para medir a resistência de um aterramento instalado e compará-la com o valor de projeto. É o ensaio que alimenta o laudo técnico e a medição de resistência ôhmica. O terrômetro usado aqui pode operar em modo de três ou quatro terminais: o quarto terminal, quando presente, compensa a resistência dos cabos de ligação, sem mudar o que está sendo medido, que continua sendo a resistência do aterramento instalado.
Método de Wenner: medir a resistividade do solo para o projeto
O método de Wenner mede a resistividade do solo, não a resistência de um aterramento instalado. Ele usa quatro eletrodos igualmente espaçados, cravados em linha reta no solo. Injeta-se corrente pelos dois eletrodos externos e mede-se a tensão nos dois internos. O terrômetro de estaca usado nesse ensaio opera em modo de quatro terminais, com os quatro eletrodos conectados ao instrumento.
O resultado é usado na fase de projeto do SPDA ou do sistema de aterramento: com a resistividade do terreno, o engenheiro dimensiona a malha, o número de hastes e o espaçamento necessário para atingir a resistência alvo. É um ensaio de campo que antecede a instalação, não uma verificação do que já existe.
Alicate terrômetro: praticidade com limites
O alicate terrômetro mede a resistência de aterramento sem desconectar o condutor, abraçando o cabo com uma garra. É rápido e prático, ideal para sistemas com múltiplas hastes em paralelo, onde o caminho de retorno existe e o alicate mede a malha como um todo.
O limite é importante: o alicate precisa de um caminho de retorno para funcionar. Em um aterramento de haste única, sem outro caminho de corrente, o alicate não consegue medir. Nesses casos, o método da queda de potencial com terrômetro de estaca é o correto.
Terrômetro de estaca: o instrumento clássico
O terrômetro de estaca (ou maleta terrômetro) é o instrumento tradicional, usado com o método da queda de potencial. Ele injeta corrente e mede a tensão entre o eletrodo e as hastes auxiliares, entregando o valor de resistência de forma confiável.
É o instrumento adequado para a medição que alimenta o laudo técnico, porque permite o ensaio completo com as hastes de corrente e de potencial posicionadas conforme o método.
Multímetro: por que não serve para medir aterramento
O multímetro comum mede resistência de baixa corrente contínua. Ele não injeta a corrente de ensaio necessária nem isola o eletrodo de outros caminhos de terra. Um valor obtido com multímetro não representa a resistência de aterramento e não deve constar em um laudo técnico.
Quando cada método se aplica
| Situação | Método | Instrumento |
|---|---|---|
| Dimensionar o projeto (resistividade do solo) | Wenner (4 eletrodos) | Terrômetro de estaca (modo de quatro terminais) |
| Verificar aterramento instalado (resistência) | Queda de potencial (62%) | Terrômetro de estaca |
| Verificar malha com múltiplas hastes | Queda de potencial ou alicate | Terrômetro de estaca ou alicate |
| Laudo técnico e AVCB | Queda de potencial (62%) | Terrômetro de estaca |
O que a norma espera da medição
A ABNT NBR 5419-3:2026 trata a resistência de aterramento como parâmetro de projeto (item 5.5.1.2): na inspeção, a integridade do eletrodo é verificada pelo ensaio de continuidade elétrica (item 7.3.4), e a norma afirma que a medição de resistência não é necessária para verificar a eficácia do SPDA (item 7.1.4). A NBR 5410 trata do aterramento das instalações elétricas. Os procedimentos em si são especificados pela ABNT NBR 15749 (medição de resistência de aterramento e de potenciais na superfície do solo, o método da queda de potencial) e pela ABNT NBR 7117 (medição da resistividade e determinação da estratificação do solo, o método de Wenner). Em ambos os casos, a medição deve ser feita com instrumento calibrado, pelo método adequado, e registrada no laudo com data, localização dos pontos e valor obtido.
Uma medição feita com o método errado, ou com instrumento não calibrado, produz um laudo que não comprova nada. Para o Corpo de Bombeiros e para seguradoras, o que vale é o ensaio correto, assinado por profissional habilitado com ART CREA-SP.
Conclusão
Medir aterramento é escolher o método certo para a pergunta certa: Wenner para a resistividade do solo no projeto, queda de potencial para a resistência do sistema instalado, e alicate apenas quando há caminho de retorno. O instrumento e o método definem se o número vale para um laudo ou não.
A ABI Antel realiza a medição de resistência ôhmica com terrômetro calibrado e pelo método da queda de potencial, e inclui o resultado no laudo técnico assinado com ART CREA-SP. Para adequação do sistema de aterramento elétrico, a equipe projeta e executa conforme a NBR 5410.
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